domingo, 14 de abril de 2013

Rosa para meninas ou meninos?


Fui comprar um presente de aniversário para o bebê de uma amiga. Entrei na loja, olhei sapatos, blusinhas, babadores, até que fui abordada por uma vendedora que me perguntou simpaticamente: “é menino ou menina?” e depois da resposta apontou para a parte mais pink da loja. Nesse momento, como num estalo, me perguntei: desde quando é assim? 
E aí, qual sapatinho é "de menina"e qual
é "de menino"?

E descobri que há um tempo as coisas eram bem diferentes. 

Se eu dissesse em uma escola, para aquelas meninas de 5 a 
10 anos com arcos, presilhas, sapatos, bolsas e vida cor-de-
rosa, que um dia essa era “cor de menino”, elas não acreditariam. Mas não é que é verdade?

No início do século XX, meninas usavam azul e meninos usavam rosa. Por incrível que pareça, esses 100 anos foram o suficiente para uma inversão cultural drástica. Mas qual era a “justificativa” para as coisas serem invertidas?

Papa (1º na hierarquia católica) nomeando
Cardeal (2º na hierarquia católica)
A cor rosa seria uma versão da cor vermelha mais clara, a grosso modo. E a cor vermelha, na tradição cristã e pictórica, por ter um pigmento bem mais caro que as outras cores, era utilizada para representar pessoas e coisas com grau de importância maior (e é aí que entra nossa linda e querida cultura do patriarcado e do machismo):  os homens, os nobres e os representantes da igreja. Nesse último conclave do papa a relação do vermelho com o poder ficou bem clara. Se via na televisão cardeais com seus trajes vermelhos e outros representantes da igreja (com grau de importância um pouco menor) com tons vinho e rosa, que também utilizam o pigmento rubro.

Diziam também que a cor rosa, por sua semelhança com o vermelho, era uma cor mais “forte” representava maior virilidade e ferocidade, características consideradas “masculinas”. 

O Kinder Ovo esse ano resolveu dividir
os brindes do chocolate em "Meninos"
 e "Meninas". E aí, é sexista?
É engraçado ver que até em coisas tão banais, como a cultura da roupa que os meninos e meninas utilizavam, estava escondida uma cultura muito maior e preponderante, que é a da superioridade masculina versus a apatia e submissão feminina. O traje azul para as meninas, assim como o dos meninos, representava qual seria o seu papel social e como elxs deveriam agir. A cor azul é considerada mais calma e delicada e também era relacionada com o manto da Virgem Maria, representado sempre nessa tonalidade.
Audrey Hepburn, sucesso em 50

Não se sabe ao certo a data em que as coisas começaram a se inverter. Mas acredita-se que foi a partir dos anos 40, e mais cedo, com o final da Primeira Guerra, que as cores foram trocando de gênero.  Há quem diga que o azul começou a ser muito utilizado para uniformes  de soldados masculinos e que a partir daí ele foi se
“masculinizando”.

Já a cor rosa foi se "afeminando" dos anos 40 para os anos 50, com o surgimento da Barbie em 1951 e começo de utilização em massa do rosa para meninas. Foi nessa época também que surgiu o Think Pink, em uma cena de Hollywood em 1956 do filme “Cinderela em Paris” (“Funny Face” é o título original), com Kay Thompson e Audrey Hepburn. 


Também acredita-se que a mudança de sentido da cor aconteceu na Alemanha Nazista, quando homens homossexuais nos campos de concentração tinham que usar um triângulo rosa no uniforme, enquanto os judeus usavam uma estrela amarela de Davi. Pode ter sido também a partir daí que o uso do rosa se tornou pejorativo para os homens e representante de características “afeminadas”.

Há algum tempo assisti ao vídeo abaixo, em que uma menininha questiona aos pais por que meninas têm que comprar brinquedos de princesas e meninos têm que brincar com super-heróis. A criança, indignada, faz uma reflexão que todos nós, principalmente os que já têm filhos, deveríamos fazer: por que simplesmente aceitar os padrões de gênero que estão impregnados na sociedade sem ao menos pensar suas razões e implicações? Por que não meninos usarem rosa e brincarem com princesas e meninas usarem azul e gostarem de super-heróis, sem discriminação? Será que não estamos apenas reproduzindo uma cultura sexista e cisgênera, no simples ato de comprar um “brinquedo de menino” ou menina? 


Gostaria de finalizar a postagem com uma propaganda anti-machismo do Governo do Equador, que é fantástica e faz alusão às reflexões que quis levantar aqui.


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