quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Onde você tem guardado seu feminismo?

É preciso bancar nossas escolhas, enquanto mulher, ser humano, algo que existe. É preciso assumir nossas vontades e não esconder, não calar. É preciso expor nossa fé no que há de mudar. Quando o Chatas de Atenas nasceu, não nos declarávamos feministas, éramos seis, quase todas adentrando esse mundo de ativismo, posicionamento e declaração. Hoje, nosso blog é abertamente feminista. Sete mulheres, que escolheram pela igualdade de gênero, pelo respeito e acima de tudo, pela mudança.

Há algum tempo atrás uma mocinha me procurou pelo facebook, conversamos sobre feminismo, o blog e o que pensamos do mundo, ela disse que o Chatas é inspiração.
Pra coroar a conversa disse numa timidez tão curiosa "eu acho que sou meio feminista".

Na hora tentei ser sutil "se você conhecer mais vai ver que é feminista por inteiro". Mas não prolonguei o tópico. Deixei para lá.
Nunca mais falei com a mocinha. Os dias passaram. O Chatas continuou sem postagem.

Então hoje eu estava cá com meus botões e poxa, Dilma sancionou a PLC 3/2013, que trata do atendimento à vítimas de violência sexual no SUS. E há poucos dias aconteceu a Marcha das Vadias do Rio, que ganhou muita atenção devido à perfomance do Coletivo Coiote (aquele mesmo, que quebrou as imagens de santas). E nesse instante abri um site local de notícias e lá estava "Mulher é morta pelo marido".

E isso tudo suscitou uma dúvida: onde tenho guardado meu feminismo?
Você pode estar se perguntando: o que tem a ver essas notícias com o feminismo dela? 
Caro leitor, te afirmo, TUDO. 

Descobrir-se, ensinar-se feminista é um processo, exercitar requer atenção e acima de tudo, coragem. Passamos toda uma vida sendo moldadxs por esta sociedade patriarcal, está na essência de nossa educação a dicotomia de gêneros, os modelos inalcançáveis de "homem" e "mulher" perfeitos, as regras de comportamento e conduta que não são simplesmente para "organização", mas que fomentam toda uma estrutura de dominação.

E vivendo neste planeta, neste país, na minha cidade, convivendo com as pessoas que convivo, percebo que por vezes, eu finjo que esqueço disso tudo e calo meu feminismo, deixo ele quietinho, pra não chatear, pra não criar polêmica. Mas que inferno! É justamente isso que eu devo fazer! 

Meu feminismo tem tudo a ver com a lei que Dilma sancionou, porque, apesar do corriqueiro discurso de que o feminismo não tem mais "o que fazer", empreitadas políticas contra a violência sexual e por um atendimento de qualidade às vítimas, são vitórias que tiveram o apoio majoritariamente feminista. 


O episódio da Marcha das Vadias do Rio, também tem muito a ver comigo, ainda que eu esteja a quilômetros. Por ser feminista muitas pessoas próximas questionaram meu posicionamento, algumas falaram para mim o que queriam ter falado para o casal da performance. Achei isso interessantíssimo. Eu visto o manto do feminismo, para o bem e para o mal. Coisas assim, que a mídia e a grande massa avistam e vomitam logo sua sentença, ficam sempre marcadas. Foi infeliz o acontecido, não concordo, não gostaria de presenciar e em hipótese alguma defenderia algo assim, mas passou. Foi. Aconteceu. E alguns minutos e duas não podem caracterizar uma Marcha de horas, com centenas. 

Daí eu me pergunto, ninguém se choca com a manchete de mais um assassinato cometido contra uma mulher, não é? Era só mais uma Maria qualquer, casada com um monstro... Ela deve ter provocado mesmo. E isso também tem a ver com meu feminismo. 

Hoje eu não brigo pelas vias "oficiais", minha chatice é privada. Eu falo sobre feminismo com quem quiser me escutar, não obrigo absolutamente ninguém. Feminismo pra mim é cultura (que enquanto prática é política também), não acredito que a solução é o Estado, por exemplo, tentar acabar com o machismo ou com a estrutura patriarcal. Funcionaria? Acho que não. As leis, de cima para baixo, ainda mais no Brasil, com uma história de cultura política tão peculiar, geralmente são "adequadas" à realidade. E o Estado é alguém, mesmo enquanto instituição, são indivíduos, com poder de agenda e veto, mais poder que os que formam a sociedade civil. 

Desenrolando meu pensamento: meu feminismo é trabalho de formiguinha. Organizadxs e politizadxs podemos levar demandas ao legislativo, pressionar o executivo e o judiciário. Individualmente podemos falar e falar e falar, e agir também, prestando atenção no que dizemos e como agimos com as pessoas. 

Você pode impedir um estupro, sabia? Já conversou com seus amigos homens sobre o fato de que sexo sem consentimento (ainda mais quando a mulher estiver bêbada) é estupro e que tem punição? Já conversou com suas amigas que julgar uma mulher pelo tamanho das roupas dela é cruel e tão preconceituoso quanto não gostar de pessoas de óculos? Que "promiscuidade" pode ser na verdade preconceito seu e que mulheres sendo assassinadas por companheiros não são crimes "passionais", mas sim uma questão de misoginia. Que não dói respeitar as pessoas pelo que elas são, ainda mais se não fazem mal a ninguém sendo assim! Que não existe um alma que corresponda perfeitamente ao padrão de "homem" e "mulher", então por que raios querer que as pessoas se modifiquem e machuquem tentando ser algo que não existe?

E eu, eu devia ter falado para aquela mocinha que ela não tenha medo de ser feminista por inteiro. Que ao se declarar assim ela vai levar nas costas todo o preconceito e suposições por vezes erradas das pessoas. Que ela vai ver nesse mar confuso que é a internet muitas farpas dolorosas, mas também vai encontrar outrxs que acreditam num futuro de mais respeito, mais amor ao próximo, mesmo com diferenças enormes entre si. 

Então, cara mocinha, se você ler isso aqui, saiba: o feminismo que brota em você tem um dever, um laço, com o feminismo de outras pessoas. É por essas pessoas que devemos nos declarar, para que elas também levantem a mão dizendo "você não está sozinhx". Eu pretendo, deste instante em diante, não guardar meu feminismo, não calar. Chatear cada vez mais. Me respeitar enquanto mulher e reclamar respeito. Eu devo isso a vocês, a todxs nós.

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